Em entrevista para a Sair da Casca

A Sair da Casca foi parceira da BVS na Campanha de Natal e apresentou em seu boletim uma entrevista com Celso Grecco, idealizador da BVS

2010/02/02


Qual é o historial  da Bolsa de Valores Sociais no Brasil?

A Bolsa de Valores Sociais no Brasil surgiu em 2003 quando a BOVESPA (Bolsa de Valores do Brasil) percebeu que o movimento da Responsabilidade Social Empresarial estava a ganhar força e que várias empresas,  inclusive o mercado financeiro através dos Bancos, já apresentavam suas propostas à sociedade civil. Nesse contexto, embora já fosse a principal Bolsa de Valores da América Latina, a BOVESPA não tinha ainda um programa de Responsabilidade Social estruturado, limitando-se à doações esporádicas à Organizações Sociais diversas.


Uma das críticas que faço à maioria dos programas de RSE das empresas é a de que em geral estes são periféricos e paralelos à actividade da empresa. Por essa razão, são tratados como um ser estranho ao próprio negócio e por consequência, de difícil entendimento por parte dos colaboradores das empresas. Os programas sociais das empresas raramente são criticados pelos funcionários (afinal tratam-se de acções sociais, humanitárias) mas também raramente contam com um envolvimento por parte destes.


Minha proposta para a BOVESPA partia da própria lógica do negócio a Bolsa e criava uma réplica desse modelo - mas com carácter próprio e adequado ao contexto e à lógica das Organizações Sociais. No entanto, sua principal qualidade era não ser paralelo ou periférico ao core business da Bolsa:  Organizações Sociais Cotadas (ao invés de empresas), Investidores Sociais interessados em lucro social (ao invés de investidores interessados em lucro),  Acções Sociais que beneficiam milhares (ao invés de acções que privilegiam poucos), uma Rede de Brokers Sociais (ao invés de Brokers), enfim, um ambiente com o qual os funcionários e a direcção da BOVESPA estavam absolutamente familiarizados e que portanto, rapidamente absorveram e se envolveram. Para além do ineditismo da ideia, já que a Bolsa de Valores Sociais que criei foi a primeira do  mundo, a razão do sucesso da BVS brasileira foi também o facto de que ela não era estranha ao negócio da Bolsa.

O que mudou no Brasil ao nível das empresas, enquanto doadoras/investidoras e ao nível das Organizações da Sociedade Civil?


O Brasil tem experimentado uma evolução muito rápida nos conceitos vigentes. Hoje em dia, o programa de doações que uma empresa mantenha (independentemente do tamanho da verba) é chamado de "Investimento Social Privado". Responsabilidade Social Empresarial vai muito além desse conceito: Uma empresa só é percebida ou não, como Socialmente Responsável, depois de analisadas as formas como ela contrata, como demite, o contingente de funcionários de outras etnias que mantém, o número de mulheres em cargos de direcção, a diferença entre os salário mais alto e o mais baixo e assim por diante.
Ser socialmente responsável no Brasil deixou, há muitos anos, de significar "investir muito no social".  Uma empresa só é socialmente responsável quando ela assegura à sociedade que a sua operação será benéfica para todos e que suas políticas respeitarão princípios de boa gestão, de direitos humanos e de cidadania.
Uma empresa no Brasil pode ser uma grande investidora social (fazer enormes donativos) e não ser socialmente responsável. Igualmente, essa empresa pode ser um exemplo de excelência em Responsabilidade Social e não ser exactamente uma grande doadora.
O Brasil já aprendeu a separar o joio do trigo. A BVS brasileira firmou-se claramente como uma plataforma para Investimentos Sociais Privados, o que já é uma boa porta de entrada para empresas que querem, também, tornar-se Socialmente Responsáveis. Aproximar-se da Sociedade Civil, entender seus desafios e sua dinâmica é o primeiro e mais importante passo nesse sentido.

Na sua opinião, que impacto poderá ter a Bolsa de Valores Sociais em Portugal?


A missão da BVS é firmar-se como um canal confiável e transparente para pessoas e empresas apoiarem Organizações da Sociedade Civil que trazem respostas novas e efectivas a velhos problemas. Todos sabemos que fome, miséria e desemprego existem há séculos e ultimamente, os índices que os medem apontam números cada vez mais preocupantes. Em paralelo, com o advento da Responsabilidade Social Empresarial, nunca tivemos tantos recursos materiais e financeiros sendo canalizados por parte das empresas e dos mercados financeiros para o sector social. No entanto, se há mais dinheiro hoje do que havia no passado, por que razão então os índices sociais não são também melhores?
Parte da resposta, talvez, esteja no facto de que aprendemos a lidar com os efeitos (fome, miséria) mas não com as  causas. A BVS espera identificar e valorizar Organizações da Sociedade Civil que actuam nas causas, nas raízes dos problemas. Por esta razão respeitamos o trabalho das Entidades Assistencialistas, mas entendemos que não é nosso papel apoiá-las – justamente para que, focando nas causas, possamos aliviar o trabalho importante dessas milhares de Entidades que precisam distribuir alimentos e assistencialismo.
Também pelo facto de ser uma réplica do mercado de capitais, inédita e corajosa, dentro de uma Bolsa de Valores e com o apoio das duas principais Fundações de Portugal, a BVS deverá cumprir o seu papel de atrair e inspirar pessoas e empresas.

Desde o seu lançamento, que mudanças é que já se podem sentir em Portugal?

Sem dúvida alguma, a principal mudança que senti foi a sede por mudanças. A BVS tem sido vista como o Farol a iluminar possibilidades e novas rotas.


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